REVISTA RETRATO | eleições 2026 | EDIÇÃO I | Fevereiro/26
A imagem que estampa nossa capa, capturada pela sensibilidade aguçada de Gabriela Biló, não é apenas um registro estético; é uma metáfora precisa do Brasil político atual. Jair Messias Bolsonaro, o 38º presidente da República, não detém mais a caneta Bic, mas sua silhueta projeta uma sombra que dita o ritmo, as alianças e o humor de toda a oposição brasileira. Inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo que investigou a trama de um golpe de Estado, o ex-capitão vive hoje o paradoxo de ser um “ausente onipresente”.

Inelegibilidade como Ativo Político
Para qualquer outro político, duas condenações de inelegibilidade e uma pena de prisão de 27 anos seriam o ponto final. Para Bolsonaro, tornaram-se combustível. Ao longo de 2024 e 2025, o ex-presidente utilizou seu isolamento institucional para se consolidar como o maior “cabo eleitoral” do país. A narrativa da “perseguição do sistema” colou em sua base mais fiel, transformando-o em um mártir vivo que detém o poder de “ungir” quem terá chances reais de enfrentar o atual governo nas urnas.
“Sangue do meu Sangue“
A grande novidade deste início deste ano eleitoral é a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) como o herdeiro direto do capital político do pai. Pesquisas recentes indicam que o senador não apenas herdou o “piso alto” de votos do bolsonarismo, mas também apresenta uma rejeição menor que a de Jair em setores moderados, sendo visto como uma peça mais articulada para o diálogo com o Congresso.

- O Plano do PL: A estratégia do Partido Liberal (PL) é clara: nacionalizar a disputa. Flávio surge como o nome que une o “bolsonarismo raiz” à necessidade de uma direita mais pragmática, superando nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema em preferência interna.
- O Dilema dos Aliados: Partidos como o Progressistas (PP) e o Republicanos observam com cautela. Enquanto alguns líderes torcem o nariz para a “dinastia Bolsonaro”, admitem que, sem o aval da sombra que ilustra nossa capa, qualquer candidatura de direita nasce sem fôlego.
Polarização
O cenário que se desenha para outubro é de uma estabilidade assustadora. De um lado, o governo tenta capitalizar entregas econômicas; do outro, a oposição bolsonarista mantém cerca de 30% a 35% do eleitorado cativo, independentemente de quem seja o nome na cabeça da chapa.
A “sombra de Jair Bolsonaro” é, portanto, o elemento que impede o surgimento de uma terceira via robusta. No vácuo deixado pela sua ausência física na urna, a direita se divide entre aqueles que querem ser Bolsonaro e aqueles que precisam dele para existir politicamente.
Herdeiros do espólio de Bolsonaro
Abaixo, os nomes que buscam converter a influência do ex-presidente em votos:
| Nome | Perfil Político | Vantagem Estratégica | Principal Obstáculo |
|---|---|---|---|
| Flávio Bolsonaro | O Ungido | Herdeiro direto do DNA e da base digital; apoio explícito do pai. | Alta rejeição em setores moderados; resistência de alas do PL. |
| Tarcísio de Freitas | O Gestor | Forte aprovação em SP; visto como a opção da “Faria Lima” e do Centrão. | Críticas da ala “raiz” por ser “pouco bolsonarista” e dependência do apoio formal de Jair. |
| Michelle Bolsonaro | A Conectora | Grande apelo com o eleitorado evangélico e feminino; lidera em algumas pesquisas qualitativas. | Falta de experiência em cargos executivos ou legislativos de alto escalão. |
| Romeu Zema | O Liberal | Sucesso administrativo em MG; alinhado a pautas de austeridade econômica. | Dificuldade em nacionalizar seu nome fora do Sudeste e falta de conexão emocional com o bolsonarismo raiz. |
| Ronaldo Caiado | O Veterano | Experiência política e segurança no setor do agronegócio; governo bem avaliado em GO. | Histórico de embates passados com Bolsonaro; visto como “independente demais” pela família. |
Duelo de Gigantes
A disputa real pelo topo da chapa na corrida presidencial atualmente se concentra no 01 Flávio Bolsonaro vs. Tarcísio de Freitas (Republicanos/SP). Embora publicamente o governador de São Paulo reafirme apoio a Flávio para evitar atritos na base, os bastidores revelam uma queda de braço silenciosa. Flávio é a aposta para manter a chama do bolsonarismo viva sem concessões.
Pesquisas de janeiro (como a AtlasIntel) indicam que ele herda a maior fatia da base fiel de seu pai, superando Tarcísio em intenções de voto entre os “bolsonaristas raiz”. Sua estratégia foca em fidelizar o núcleo duro e usar sua posição no Senado para blindar a família contra investigações.

Já o governador de São Paulo joga o jogo da eficiência. Ele é o candidato preferido dos mercados e de quem deseja uma “direita sem barulho”. Tarcísio possui uma imagem melhor entre moderados e eleitores de centro-direita que rejeitam os excessos retóricos da família Bolsonaro. Contudo, ele enfrenta o dilema da subserviência: se descolar demais do ex-presidente, perde a base; se ficar perto demais, herda o teto de votos.
Pespectivas
Analistas indicam que uma chapa conjunta (Flávio com Tarcísio como vice ou apoiador) seria a força mais competitiva contra o atual governo. Entretanto, o ceticismo do Centrão sobre a viabilidade eleitoral de Flávio mantém a porta aberta para que Tarcísio seja o nome de consenso no “apagar das luzes” das convenções.
Crescimento de Flávio entre moderados
A mais recente pesquisa do instituto Quaest, divulgada no dia 11 de fevereiro, trouxe números preocupantes para o governo do presidente Lula (PT) que tentará reeleição. Embora o petista ainda lidere todos os cenários, Flávio conseguiu reduzir a desvantagem no segundo turno, passando de 28% em janeiro para 31% em alguns recortes de primeiro turno.

O ponto chave tem sido a estratégia de “moderação” adotada pelo senador. Analistas apontam que Flávio tem buscado se distanciar de embates ideológicos mais radicais para dialogar com o eleitor de centro-direita e moderado, que rejeita o PT, mas ainda via com desconfiança o sobrenome Bolsonaro. Nesta última amostra, ele absorveu parte dos votos de Tarcísio de Freitas em cenários onde o governador de São Paulo não aparece, mostrando que começa a furar a bolha do “bolsonarismo raiz”.
Veja os números:
| Candidato | Porcentagem (%) |
| Lula (PT) | 35% |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 29% |
| Ratinho Júnior (PSD) | 8% |
| Romeu Zema (Novo) | 4% |
| Outros (Renan Santos/Aldo Rebelo) | 2% |
| Brancos / Nulos / Indecisos | 22% |
No cenário de 2°turno, a vantegem de 10 pontos que Lula tinha em dezembro, cai para apenas cinco neste levantamento. Veja o comparativo:
| Candidato | Dezembro/2025 | Janeiro/2026 | Fevereiro/2026 (Atual) |
| Lula (PT) | 46% | 45% | 43% |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 36% | 38% | 38% |
| Brancos/Nulos/Não votam | 15% | 15% | 17% |
| Indecisos | 3% | 2% | 2% |
Já quanto assunto é rejeição, os nomes de ambos seguem empatado. 54% dos entrevistados rejeitam Lula e outros 55% não voatariam de jeito nenhum em Flávio. Isso mostra que a eleição será decidida por quem conseguir agradar o eleitor que foge da polarização.
A pesquisa Genial/Quaest ouviu 2.004 eleitores de 16 anos ou mais, entre os dias 5 e 9 de fevereiro, em 140 municípios de todas as regiões do paí. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi encomendada pelo Banco Genial e está registrada no TSE com o número 00249/2026.
Publicado em 13/02/2026 ás 19h35 | Atualizado em 15/02/2026 às 15h53
Colaborou nesta edição: Marcilio Telles; Ana Paula Marins; Luan Lopes
Edição de imagens e capa: Marcílio Telles
Pesquisa e texto: Ana Paula Marins e Luan Lopes
Fotos: reprodução do X
Gabriela Biló é uma premiada fotojornalista do jornal Folha de São Paulo, atua em Brasília e tem suas fotos publicadas pelo maiores veículos de informação do mundo.
Deixe um comentário